Umav Ozatroz

rimando, aspirando, transformando

Arquivos de tags: poemas

Roceira

a roceira trajava glamuroso uniforme social
e usava máscara envernizada a civilização
empunhou sua metralhadora e soltou a voz
saiu asneira no surdo grito em meio a barulheira

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Ser poeta

ser poeta é ser atormentado
ser presa fácil é ser inseguro
ser canalha é ser ator melado
ser palhaço é ser que leva murro

daki

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coadjuvantes insólitos

o terno armani rasgou-se ao catar da calçada o centavo do bolso furado

perdeu um olho mas ganhou invejável corpo ao fazer dieta o caolho gordo

par de olhos tímidos retirou-se para a privacidade de um óculos-de-sol

resmas de papel em revoada acorbertaram a saia que se revoltava

errantes sapatos acertavam os passos rumo a sandálias vagabundas

em círculos pequenos circulava um rumor de que aquela roda não girava bem e tinha tara por pés

o tapete aceitou submisso o suborno da vassoura

duelaram amavelmente até o amanhecer empunhando uma só espada

parede de tijolos passava o tempo com quebra-cabeças no hospício

seu requebrado partiu ao meio o coração enciumado

o colarinho frouxo reclamou ao amigo que, espumando de raiva, matou a sede e as mágoas

o queijo no anzol fisgou quase toda a ninhada daquele mar de merda

uma verve mágica encantava multidões com palavras que a cobiça surda invejava

Refeição Lupina

Mostra-me tua boca
Faminta por palavras
Seca rangendo dentes
Ávida por suculentos
Adjetivos

Instigado por tua fome
Vou à caça de nomes
Em manadas plurais
De adjetivados
adverbiozinhos
Mortos a frio

Estou de volta
Ainda tens fome?
Morde minha barriga
Repleta de versos
E pronto come
Enquanto quente
Meu vômito

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Nuvens

abre tua janela
deixa correr vento
levando lamento
lágrimas são belas
condensadas
em nuvens

Reminiscência

Ali, no meio de folhagens diversas
Ressequidas sobre o solo
Reencontrou o que há tempos havia perdido
Mas não pode levá-la de volta consigo
Sua copa assomava-lhe à cabeça
As raízes firmes no chão
Tirou seu canivete
Entalhou seu coração
E partiu

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Desentendimentos

não consigo falar contigo ao falar consigo
não consigo falar consigo ao falar contigo
consigo a falar contigo não consigo falar
contigo não consigo falar consigo
falar consigo não consigo
contigo falar não consigo
consigo não falar ao falar consigo
consigo a falar falar não consigo
falar não consigo contigo a falar
falar consigo consigo falar
falar contigo não consigo falar
consigo falar falar consigo
consigo falar contigo
não consigo não falar consigo
consigo falar não consigo

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Alvorada

Vem, verte teu calor sobre mim
Tenho frio de gelar ossos
É tanto que nem andar posso
Inerte qual estátua de jardim

Vem, faz de tesouro esse jardim
Folheado a ouro ele jaz nosso
Todas rosas, lírios e lótus
Com a última flor do latim

Vem, canta a meus ouvidos em latim
Ergue tua voz lenta em sonoro
Cântico que, esperançosos
Core nosso sangue carmesim

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Ególatras Anônimos

alinhado aos sulcos nas bordas dos braços fechados o mecanismo da dor girava insone por filigranas colores em curvas tangenciais aos intempestuosos casulos em abandono de vestidos de seda rasgados e repartidos por irmãs recém-convertidas ao templo do consumo em órbitas regulares de olhos vidrados em vidraças sepulcrais para transeuntes blasé disfarçados de clérigos que salpicavam benção a inoportunos ventres alheios ao pensamento disforme do velho que vertia cevada e falava abobrinha sobre nada

ofendeu-se com a ofensiva e ofendeu-os com a defensiva

procurei pelo sentido no cerne de meu ser
doeu
definitivamente sentido

o falatório no refeitório foi servido pelo osório

falanges malignas irrompiam em sua mente cravando idéias sem rumo pela coluna cervical subserviente aos temores de senhores pastores de almas revoltas mumificadas pela mídia devassa do tubo infecto canalizando desventuras por cima de muralhas ombreando jardins ressequidos e remotas lembranças floridas

gorjeou vacilante lá do mato
regojizou exultante o ágil gato

engoliu o ego e arrotou um cego

aportavam a antenas dramas em veleiros por ondas no ar
interferências batiam forte em noveleiros com olhos a borrar

———-
Boteco do Quintana, 26 de Março de 1827

Favor não interpretar, sentir, analisar, desconstruir, criticar, comentar, responder ou enxergar-se no escrito. Grato.

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Você

Eu digo a você
Triste figura no espelho
Você é falso
Você é fake
Você é troll
Você é assombração
Você é múltiplos reflexos se estendendo ao infinito, cada vez mais distorcido e torpe
Você não existe
Eu tenho dó
De você

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