Umav Ozatroz

rimando, aspirando, transformando

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Fogo e Gelo

Alguns dizem que o mundo acabará em fogo,
Outros dizem em gelo.
Do que provei do desejo o jogo
Fico com aqueles que favorecem fogo.
Mas se tivesse que duplamente sofrê-lo,
Acho que conheço bastante do ódio
Para dizer que para destruição gelo
Também é ótimo
E suficiente para tê-lo.

— Robert Frost, Fire and Ice

Original:

Some say the world will end in fire,
Some say in ice .
From what I ‘ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

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Esperança

Esperança é a coisinha emplumada
Que se empoleira na alma,
E canção sem palavras a ser entoada,
Não pára de forma alguma,

E mais doce na ventania é ouvida;
E terrível deve ser o temporal
Que poderia deixar a avezinha abatida
Que a tantos aqueceu ante o mal.

Eu a ouvi na terra mais gélida,
E no mais estranho mar;
Apesar de nunca, mesmo no fim,
Ter pedido uma migalha de mim.

— Emily Dickinson, Hope

Original:
Hope is the thing with feathers
That perches in the soul,
And sings the tune without the words,
And never stops at all,

And sweetest in the gale is heard;
And sore must be the storm
That could abash the little bird
That kept so many warm.

I’ve heard it in the chillest land,
And on the strangest sea;
Yet, never, in extremity,
It asked a crumb of me.

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Aspiração

Por que é que minha alma anseia
De visões e mágoas cheia,
Por que ao longe devaneia
Minha mente sem cessar?
Por que à tarde, em fins do dia,
Ao cair da maresia,
Vou sobre a costa bravia
Mágoas chorar sobre o mar?

Por que se me oprime o peito
—Já de há muito à magoa afeito —
Nesse momento imperfeito,
Misto de trevas e luz,
Quando tudo, ao longe e ao perto,
Se veste de um brilho incerto
E eu, desta alma no deserto,
Só diviso a paz na Cruz?

Por que ao murmúrio das fontes,
Quando a sombra desce os montes,
Fito o olhar nos horizontes
E fico mudo a cismar!
Por que à noite, à lua cheia,
«Por noites da minha aldeia»,
Chora e ri e devaneia
Meu agitado pensar?

Oh! quem é que assim me inspira
À mente que me delira,
Ao coração que suspira
Alívios, consôlo e paz?
Quem faz que além desta vida
Veja uma outra prometida
E anseie essa pátria querida,
Não esta pátria falaz?

Não vem de mim nem da terra
—Que tal ouvir não encerra —
O que este peito descerra
Num hino de tanta fé:
Eu cismo às vezes de amores,
Porém são outros ardores,
Outros são os seus fervores,
Outro amor que este não é…

Eu tenho sonhos de glória,
Que me acodem à memoria
Como a visão ilusória,
Que brilha e que se desfaz:
De ouro e nome tenho sede;—
Do poder aspiro à sede…
Mas toda esta glória cede
À glória de luz e paz!

Oh! transborda-me este afeto,
Que aqui dentro anda secreto,
Como de vaso repleto
Transborda puro o licor!
Oh! inunda-me este oceano
De um amor tão sobre-humano,
Tão puro de todo o engano…
Que nem sei se é isto amor!

Oh! embala-me esta esperança,
Aonde a alma me descansa
Em pura e santa bonança,
Tão bafejada de Deus,
Que não pode —eu bem o vejo —
Descender-me este desejo
Senão da pátria que invejo…
Oh! esta esperança é dos céus!

És tu oh Deus que me chamas!
És tu Senhor que me inflamas
Naquelas ardentes chamas,
Que me dão tão pura luz!
És tu, oh Pai! que da altura,
Olhando a minha amargura,
Me estendes a mão segura,
A mão que a ti nos conduz!

Sim! minha alma te pressente!
Guiada por luz ingente
Desse farol que não mente,
Já pra ti desprende o vôo…
Oh! quem tem essa luz querida,
Não tem outra prometida,
Não pode amar outra vida…
Senhor! eu busco-te… eu vou!

Anthero de Quental, Raios de Extincta Luz

Original:

Porque é que minha alma anceia
De visões e magoas cheia,
Porque ao longe devaneia
Minha mente sem cessar?
Porque á tarde, em fins do dia,
Ao cahir da maresia,
Vou sobre a costa bravia
Magoas carpir sobre o mar?

Porque se me opprime o peito
—Já de ha muito á magoa affeito —
N’esse momento imperfeito,
Mixto de trevas e luz,
Quando tudo, ao longe e ao perto,
Se veste de um brilho incerto
E eu, d’esta alma no deserto,
Só diviso a paz na Cruz?

Porque ao murmurio das fontes,
Quando a sombra desce os montes,
Fito o olhar nos horizontes
E fico mudo a scismar!
Porque á noite, á lua cheia,
«Por noites da minha aldeia»,
Chóro e riu e devaneia
Meu agitado pensar?

Oh! quem é que assim me inspira
Á mente que me delira,
Ao coração que suspira
Allivios, consôlo e paz?
Quem faz que além d’esta vida
Veja uma outra promettida
E anceie essa patria querida,
Não esta patria fallaz?

Não vem de mim nem da terra
—Que tal ouvir não encerra —
O que este peito descerra
N’um hymno de tanta fé:
Eu scismo ás vezes de amores,
Porém são outros ardores,
Outros são os seus fervores,
Outro amor que este não é…

Eu tenho sonhos de gloria,
Que me acodem á memoria
Como a visão illusoria,
Que brilha e que se desfaz:
De ouro e nome tenho sêde;—
Do poder aspiro á séde…
Mas toda esta gloria cede
Á gloria de luz e paz!

Oh! trasborda-me este affecto,
Que aqui dentro anda secreto,
Como de vaso repleto
Trasborda puro o licor!
Oh! inunda-me este oceano
De um amor tão sobre-humano,
Tam puro de todo o engano…
Que nem sei se é isto amor!

Oh! embala-me esta esp’rança,
Aonde a alma me descança
Em pura e santa bonança,
Tão bafejada de Deus,
Que não pode —eu bem o vejo —
Descender-me este desejo
Senão da patria que invejo…
Oh! esta esp’rança é dos céos!

És tu oh Deus que me chamas!
És tu Senhor que me inflammas
N’aquellas ardentes chammas,
Que me dão tão pura luz!
És tu, oh Pae! que da altura,
Olhando a minha amargura,
Me estendes a mão segura,
A mão que a ti nos conduz!

Sim! minha alma te pressente!
Guiada por luz ingente
D’esse fanal que não mente,
Já p’ra ti desprende o vôo…
Oh! quem tem essa luz querida,
Não tem outra promettida,
Não pode amar outra vida…
Senhor! eu busco-te… eu vou!

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Nem mármore nem os envernizados monumentos

Nem mármore nem os envernizados monumentos
De príncipes sobreviverão a esta poderosa rima;
Mas tu brilharás tanto mais nestes documentos
Que pedra arruinada, pelo depravado tempo ferida.
Quando guerra fútil estátuas derrubar,
E raízes brotarem do trabalho de marcenaria,
Nem ante a espada de Marte ou fogo da guerra a queimar
O registro vivo de tua memória se apagaria.
Frente à morte e toda sorte de inimizade
Possas tu continuar; a ti elogios ainda em andamento
Mesmo aos olhos de toda a posteridade
A desgastar este mundo até o fim do tempo.
    Então, até que no julgamento te levantes,
    Tu vives aqui, a habitar em olhos de amantes.

— Soneto 55, William Shakespeare

Original:
Not marble nor the gilded monuments
Of princes shall outlive this powerful rhyme;
But you shall shine more bright in these contents
Than unswept stone, besmear’d with sluttish time.
When wasteful war shall statues overturn,
And broils root out the work of masonry,
Nor Mars his sword nor war’s quick fire shall burn
The living record of your memory.
‘Gainst death and all-oblivious enmity
Shall you pace forth; your praise shall still find room,
Even in the eyes of all posterity
That wear this world out to the ending doom.
    So, till the judgment that yourself arise,
    You live in this, and dwell in lovers’ eyes.