Umav Ozatroz

rimando, aspirando, transformando

Arquivos da Categoria: Sátira

A Revolução dos Bobos

A Revolução dos Bobos

Bobos da Corte, sempre piada,
Esquálidas figuras minguadas:
Saco de pancada e deboche
De reis em barrigas e fantoches.

Cansados de tanta humilhação,
De fazer troça da adulação,
Espelhos côncavos a refletir
Perfeitos panacas a de si rir,

Iniciaram sua cruzada:
Buscavam seus iguais sem espada,
Armados com piadas e tortas
Mais fortes que leis e morais mortas.

Dos circos trouxeram os palhaços
Ofício manchado por velhacos;
Nas tabernas colhem humoristas
Bebuns arruinados por juristas;

Chegam boneco e ventríloquo
Vociferando contra iníquos;
Vêm Pierrot e Colombina
Contra os filhos da Messalina;

Trouxeram ainda os mímicos
Mudos com indignos políticos;
E também idiotas das vilas
Funções roubadas por parasitas.

Trupe formada, marcham em frente
Chegando ao Palácio crescente.
São recebidos por cavaleiros;
Bradam forte, nada cavalheiros

Discursos de fachada farsantes
Mais adequados a meliantes
Que a representantes do povo
— E assim vai o primeiro ovo!

Impávidos tentam permanecer
À chuva de tortas a lhes descer
Pelas sisudas, tortas máscaras
Que lhes sufoca as faces bárbaras.

Sir Ney é o primeiro a tirar
Para seus adversários mirar.
Sem proteção, caiu vitimado:
Acertou-lhe um bordão rimado.

Um a um todos eles tombavam
Diante de quem sempre zombavam.
Indefesos contra a pura verve
Tanto gargalham que o sangue ferve.

Prontos a cair ou matar de rir
Ou ver seus adversários partir,
Os bobos foram vitoriosos:
Alegres venceram os furiosos.

E assim elegeram um dos seus
Para reinar sobre todos os plebeus.
Mas nem só de piadas viverão
E dias tristes ainda verão.

O mais triste, acima de tudo
É que sendo bobos paspalhudos
Não registraram sua história
Que perdeu-se assim na memória.

Assim a História se repete
E o poema desaparece.

Inspiração

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Manchete

Deputados por provocação
Disputam por votação
Putas por vocação
Em promoção,
diz puta.

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Corporativismo

Atiro uma pedrinha no lago
A superfície em vida se desmancha
Várias idas e vindas em andança
Desalinho que se faz notado

Reação em cadeia logo advém
Embaixo agitação burburinha
Como a toda revolução convém
Fino véu a esconder raivinha
Repentina eclosão de agonia
Revela toda baixeza de alguém
Perturbado por mera pedrinha
Agita seus pares muito além

Cardume em fúria há-me cercado
Na superfície em morte se desmancha
Minhas idas e vindas sem lembrança
Torvelinho de emoções por onde deságuo

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Cálice

( refrão )
Pai, afasta de mim esse… Cale-se!
Pai, afasta de mim esse… Cale-se!
Pai, afasta de mim esse… Cale-se!
…De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

( refrão )

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

( refrão )

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

( refrão )

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguem me esqueça

— Chico Buarque de Hollanda

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Melou

Poema de merda
(ou Melô dos merdinhas)

Só faço merda

Assisto merda
Compro merda
Ouço merda
Leio merda

Cago merda
Coito de merda
Cruzo os braços de merda
Voto em merda
Trabalho merda

Como merda
Cheiro merda
Nado em merda
Cheiro à merda

Sou um merda.

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Perdaedores

Eu tenho um gato
  Com fama de comedor:
  É o terror do roedor,
É morte que vem do mato.

Na surdina, afia as garras.
  Ao menor ruído dispara
  E a vítima nem repara:
Já na boca jaz entre barras.

Brinca, cruel,
  com presa indefesa
Jogada ao céu
  E do chão à dureza.
  Presa por natureza
Prova do fel
  Na vida, em tristeza
E na morte, ao léu.

Cego e furado, já sem amarras
  O gato o devora e retalha,
  Alheio da vida a represália:
Outro felino por trás o agarra.

De feroz caçador de rato
  À caça de maior predador:
  Ganhou fama de perdedor
E tomou no rabo.

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Lalau

Pense grande: roube muito!
  Justiça morosa com juros premia
  Espertos, não ladrão de galinha
Medíocre, em retorno afoito
À cela, familiar, e ao coito
  Com velhos compadres de agonia
  Esperançosos que de bolsa-família
Prole grande receba muito!

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Elegia a Elogio

Gracejos fúteis
  De bocas ruminantes
Para linhas atrozes
  Por olhos vacantes
Passando inúteis

  «Elogio a Elegia»

Pessoas inférteis
  Por hora vacilantes
Para linhas atrozes
  Desembocando rampantes
Garatujas férteis

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Promessas

Dessa cama quente
  À mais fria nuvem
  Teus olhos volvem
Em choro ardente.
Em trama envolvente
  Mãos que se movem
  Recusas não ouvem
Pra proposta indecente.

Toda prosa e inocente
  Vovó teimava em sorrir
Mostrando o novo dente
  Que lhe custou a sair.
  À sua neta a partir
Elogiava insistente
  Apressada em garantir
Desse senhor quem sustente.

Arremedo de gente,
  Calhorda em campanha,
  Gurias sempre apanha
Com seu papo inclemente.
Promessa inconsequente,
  Conquista já ganha,
  De confusão tamanha
Se livra pela tangente.

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